Real desvalorizado não reduz déficit na indústria

A desvalorização cambial não deve reduzir o déficit comercial ou a penetração dos importados em setores industriais importantes para a balança. Falta de fornecedores nacionais de insumos, demanda por produtos acabados sem fabricação nacional e perda de parte da cadeia produtiva durante o período de real mais valorizado são fatores que levam a uma estimativa de efeito restrito, ou quase nulo, da alta do dólar como freio das importações para os setores de produtos químicos, de vestuário, de máquinas e equipamentos, de transformados plásticos e de produtos de informática e eletrônicos.

Juntos, esses segmentos contribuem com pelo menos 60% do saldo negativo gerado por setores da indústria de transformação que apresentam déficit comercial. O cálculo leva em consideração dados de 2013 da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). Em alguns setores, como de eletroeletrônicos e de transformados plásticos, a avaliação dos representantes das indústrias é que o déficit da balança comercial dos segmentos irá se agravar. No vestuário, o comércio varejista diz que o câmbio não causará a redução dos importados no consumo nacional.

No setor eletroeletrônico, o déficit foi de US$ 36 bilhões em 2013, resultado de US$ 7,4 bilhões em exportações e US$ 43,6 bilhões em importações, segundo dados da Abinee, que reúne a indústria do setor. Para este ano, a Abinee estima saldo negativo de US$ 40 bilhões. A avaliação é que as exportações devem ficar estáveis, mas as importações irão crescer e atingir US$ 48 bilhões.

“A maneira mais rápida para se reduzir o déficit comercial do setor, na verdade, é tentando elevar o nível de exportações”, diz Humberto Barbato, presidente da Abinee. Nesse caso, diz, a estratégia seria estimular as indústrias elétricas com produtos que possuem tecnologia nacional consolidada e são menos dependentes da tecnologia internacional. É o caso, diz ele, de motores e geradores.

Para Barbato, o perfil atual dos produtos comercializados impede o setor de reduzir importações, que devem continuar a avançar no mercado. A participação dos importados no consumo aparente de bens finais do setor era, segundo a associação, de 19,6% em 2008. No ano passado atingiu 23%. Para este ano, a estimativa da Abinee é de 25,5%.

A desvalorização cambial também não irá resultar em redução dos valores importados, diz José Luiz Cunha, diretor-executivo da Abvtex, que representa grandes varejistas do setor de vestuário. Ele explica que não há produção nacional para atender à demanda doméstica. E a questão não é somente de escala, como também de tecnologia para produção de tecidos e confecção. Ele exemplifica com o vestuário de inverno.

“No Brasil não há roupas de lã ou com o toque de couro sintético que está na moda hoje, por exemplo.” Os tecidos sintéticos, diz, requerem tecnologia e maquinário pouco presentes no país. A indústria brasileira, lembra ele, é mais forte em confecção de malha e jeans, mas não tanto nos sintéticos, que acabaram ganhando muito mercado.

Segundo avaliação do Iemi, consultoria de estudos de mercado especializada nos segmentos têxtil, calçadista e moveleiro, a importação irá desacelerar em 2014, mas continuará crescendo mais que a produção nacional. Marcelo Prado, diretor do Iemi, diz que a participação dos importados no consumo aparente de vestuário, em volume, deve crescer de 12,1% no ano passado para 16% em 2018. Para este ano, a estimativa é que os importados atinjam 13,6% do consumo aparente.

 Os importados também ganharam espaço nos transformados plásticos, segundo estimativa da Abiplast, que reúne as indústrias do setor. O déficit da balança comercial do segmento – US$ 2,4 bilhões no ano passado – deve chegar a US$ 2,6 bilhões neste ano. As importações devem crescer 6%, enquanto as exportações devem se expandir 5%, estima a associação.

José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Abiplast, explica que a desvalorização cambial para a indústria nacional de produtos plásticos tem impacto direto no custo de produção, já que a alta do dólar é imediatamente repassada para o preço das resinas, principal matéria-prima do segmento. “Com esse reajuste provocado pela desvalorização cambial no custo de produção doméstico, o impacto fica bem próximo ao da mudança de câmbio sobre os importados. Por isso a desvalorização não aumenta a competitividade da indústria nacional.”

Em 2013, mesmo com a desvalorização do câmbio médio do ano de 10% em relação a 2012 e elevação de 4% no preço médio de importação dos transformados plásticos, o volume de produtos importados no segmento cresceu 3%, calcula a Abiplast. Segundo estimativa da associação, o coeficiente de importação de transformados plásticos deve crescer de 12% em 2013 para 14% este ano.

Para o setor químico, o câmbio menos favorável para importações deve contribuir para uma pequena redução do déficit na balança comercial do segmento, de cerca de US$ 32 bilhões no ano passado para US$ 31,7 bilhões neste ano. Segundo Denise Naranjo, diretora de comércio exterior da Abiquim, entidade que reúne os fabricantes do setor, o primeiro trimestre mostrou alguma acomodação das importações, que recuaram 3,7% em relação aos primeiros três meses de 2013.

Essa retração esteve bastante relacionada com os preços em dólar dos produtos, já que em volume as importações ainda subiram 2,2%, na mesma comparação. Por isso, diz Denise, não é possível esperar que a queda de 4,1% do déficit comercial no primeiro trimestre se repita no restante do ano.

Como não foi apenas o real que ficou mais fraco em relação ao dólar nos meses recentes, Carlos Pastoriza, diretor-secretário da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), avalia que a desvalorização da taxa de câmbio não tornou o setor mais competitivo. “A recuperação da competitividade da indústria nacional só ocorreu em relação aos produtos americanos, mas outros concorrentes, como Coreia do Sul e os demais tigres asiáticos, também tiveram desvalorização da moeda no período.”

A mudança de patamar do câmbio, diz o diretor, trará pouco alívio para o déficit comercial do setor, porque com o real forte parte da indústria passou a importar máquinas já acabadas. “As empresas começaram comprando componentes de fora do país, para deixar o produto mais barato, mas em certo momento decidiram trazer o maquinário já pronto. Nesse processo, parte da cadeia industrial desapareceu”.

Assim, a participação dos importados no consumo doméstico, que era de 50% em 2007, atualmente é de quase 70%, segundo Pastoriza. Desse total, cerca de dois terços são máquinas acabadas, diz.

Para reverter esse cenário, Pastoriza avalia que a taxa de câmbio precisaria ficar em torno de R$ 3. Barbato, da Abinee, também considera que a moeda nacional ainda está valorizada, apesar do processo de depreciação recente. “O nosso câmbio de equilíbrio está entre R$ 2,70 e R$ 2,80. Estamos longe dessa realidade.”

Barbato diz que a falta de fornecedores nacionais acontece porque a produção não conseguiu acompanhar as mudanças tecnológicas. A mudança de demanda de TVs de tubo para as de tela plana é um bom exemplo, diz. “A indústria nacional fabricava tubos, mas não produz as telas das novas TVs.” (Fonte: Valor Econômico – 28/04/2014)

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