Os Caminhos do Empreendedorismo no Brasil

Por Marcelo Villin Prado* para a Revista Costura Perfeita Edição Ano XIX – N103 – Maio/Junho 2018.

Há muito que temos visto um processo intenso de empreendedorismo no Brasil, cujos resultados vem mantendo o nosso país, ao longo dos últimos 15 anos, entre os líderes em termos de abertura de novas empresas, no grupo dos países em desenvolvimento. Neste período, o Brasil registrou um ritmo de abertura de novas empresas superior a 5% ao ano, contra índices inferiores a 1 ou 2% na maioria dos demais países, e isso ao mesmo tempo em que o nosso PIB apresentou taxas médias de crescimento bem modestas, próximas a 1,5% ao ano.

E ao contrário do que se possa imaginar, a crise econômica que assolou o Brasil nos últimos três anos, ampliou ainda mais o ritmo de abertura de novas empresas, embora não por um viés comportamental do brasileiro, e sim pela falta de alternativas de emprego, formais ou informais, que obrigou a uma boa parte das famílias brasileiras a se aventurarem na abertura de um negócio próprio, como único meio para conseguirem o seu sustento.

O início da retomada do crescimento econômico no Brasil, mesmo que ainda em ritmo lento e claudicante, continua a dar sinais de que esse ímpeto de empreendedorismo tende a se manter elevado nos próximos anos. Fatores como o aumento paulatino da demanda, a chegada incessante de novas tecnologias estimulando a formação de start ups e a recente Reforma Trabalhista – talvez o maior e melhor feito dos nossos políticos, nos últimos vinte anos, ao modernizar as relações de trabalho e criar novos modelos de geração de renda – que só tendem a impulsionar ainda mais a abertura de novas empresas em nosso país. Um mercado, onde nada menos que 35% das empresas ativas foram abertas nos últimos 2 anos, mesmo tendo contra elas, um dos ambientes de negócios mais hostis dentre os países em desenvolvimento, carregado de burocracia, com um sistema tributário complexo, que onera a produção e o investimento, com linhas de financiamento escassas e altas taxas de juros, ao menos para a maioria dos mortais.

Este ambiente hostil aos negócios, não tem diminuído o ímpeto de abertura de novas empresas, mas tem diminuído as suas chances de sobrevivência e a sua ambição em relação ao seu porte futuro. De fato, boa parte das novas empresas criadas no Brasil, apresentam objetivos bem modestos, focados no simples sustento das famílias dos seus empreendedores. E isso não ocorre à toa, já que a grande maioria dos nossos empresários temem os riscos inerentes ao crescimento, que aqui se tornaram ampliados por conta de um modelo tributário que pune os que ousam crescer, com obrigações fiscais absurdas, como são os casos das normas de origem, do bloco k, das substituições tributárias e de outras regras excêntricas, que só fazem assustar os pequenos empreendedores.

Quando observamos essa situação em empresas industriais, inseridas em cadeias produtivas longas e intensivas em mão de obra, como é o caso do setor produtor de vestuário, estes desestímulos são ainda mais danosos e minam a capacidade das novas empresas de almejarem escalas maiores, ou mesmo de se arriscarem em formatos mais inovadores, que carreguem em seu “dna” modelos de negócio mais disruptivos.

É notório no setor do vestuário brasileiro, ao menos na maioria dos casos, que a criação de novas empresas obedece a um processo recorrente de “imitação em menor escala” de empresas tradicionais já existentes, minimizando as possibilidades de geração de novos modelos de negócio.

Este processo de mera reprodução do já que existe é a base da formação de muitos dos polos produtores de vestuário espalhados pelo país, onde um grupo de novos empreendedores, muitas vezes formado por funcionários egressos de empresas já instaladas na região, inicia o seu próprio negócio, espelhando o da empresa em que aprendeu o seu ofício.

Esse modelo de empreendedorismo pode ser facilmente observado em cidades como Nova Friburgo e Juruaia, especializadas em moda íntima; Jacutinga, Monte Sião e Farroupilha, especializadas em malharia retilínea; Caruaru, Santa Cruz do Capiberibe e Toritama, com forte apelo no jeanswear; dentre outros, país afora.

Apesar da baixa diferenciação entre os modelos de negócio, ou mesmo das linhas de produto oferecidas, a formação de polos produtores como estes, traz vantagens competitivas interessantes para as novas empresas, que se beneficiam de estar em um local onde tende a haver oferta de mão de obra qualificada, prestadores de serviços e fornecedores especializados, além de atrair um fluxo relevante de potencias compradores do seu produto.

Uma vez estabelecido, porém, o desafio destas empresas é sair da posição de mero “imitador” e partir para o desenvolvimento de um modelo próprio, único, capaz de oferecer diferenciais que agreguem mais valor à marca e aos seus produtos, através da inovação nos processos de produção, criação e comercialização. Este é único caminho sustentável a longo prazo, para as empresas que almejam enfrentar os desafios do crescimento, num ambiente de produção tão desafiador quanto o do mercado brasileiro de moda.

Sucesso!!

  . Indicadores Setoriais

A produção da indústria do vestuário apresentou crescimento de 4,7% no mês de fevereiro de 2018, quando comparado ao mês de janeiro. No acumulado do ano até fevereiro, segundo a Pesquisa Industrial Mensal do IBGE, o índice ainda acumula uma queda de 2,7%, que tende a se converter em valores positivos, nos próximos meses, por conta da aceleração das vendas do varejo, com a aproximação do Dia das Mães, dos namorados e do inverno.

O índice de vendas no varejo (volume) de vestuário ainda registrou queda significativa em fevereiro, (-) 17,2%, afetado pelo fim das liquidações e a semana perdida do Carnaval. No acumulado do ano, essa queda é menor, da ordem de (-) 2,5%, devendo se reverter em números positivos, ainda no primeiro quadrimestre deste ano.

Segundo o IBGE, os preços do vestuário no varejo avançaram 0,33% em março, acumulando queda de 1,03% durante o ano, beneficiado pelo período de liquidações.

O valor das importações continuou a apresentar crescimento expressivo nos primeiros dois meses de 2018, registrando uma expansão de 39,2% no acumulado do ano, até fevereiro, atingindo US$ 349,8 milhões. As exportações brasileiras de vestuário, por sua vez, alcançaram apenas US$ 16,7 milhões até fevereiro, representando queda de 4,5% em relação ao primeiro bimestre de 2017.

Costura-Perfeita---Abril-2018

Assinatura: Marcelo V. Prado é sócio-diretor do IEMI – Inteligência de Mercado, e membro do Comitê Têxtil da FIESP (faleconosco@iemi.com.br).

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