O quase indecifrável discurso da roupa

Do ponto de vista do conforto, a diferença entre uma bermuda e uma calça de algodão pode ser quase nenhuma. Mas do ponto de vista da mensagem que essas duas peças transmitem a distinção é enorme. As roupas falam – feliz ou infelizmente. E quanto elas “abrem a boca”, nada pode fazê-las calar.

Com mais traquejo e sem nenhuma culpa de confessar que se preocupa com o que veste, a mulher costuma entender melhor a língua falada por sua indumentária. Tanto, que a usa para comunicar suas intenções ou objetivos quase que automaticamente. Para o homem, essa “conversa” entre o quer comunicar e o que efetivamente diz por meio da roupa é cercada de mais conflitos.

Conforme matéria publicada pelo Valor, em junho, é alta a frequência com que diretores de recursos humanos ainda flagram funcionários vestidos de forma inapropriada para o ambiente profissional. A pesquisa, feita pela consultoria de recrutamento Robert Half, ouviu 1.775 executivos de 19 países. Especificamente no Brasil, as entrevistas revelaram que 22% deles se deparam com colegas mal vestidos “com muita frequência”. Vale dizer que a média entre os entrevistados que responderam a mesma coisa, no mundo, foi de 9%. Pode-se concluir que o homem brasileiro está um tantinho atrás de seus pares estrangeiros quando o assunto é acertar no “dresscode”.

Outro dado interessante comprova isso. O estudo “Comportamento de Compra do Consumidor de Moda 2012”, do Instituto de Estudos e Marketing Industrial (Iemi), diz que 37% dos homens que fizeram compras nos últimos três meses estavam acompanhados da mulher ou namorada. “Eles não querem correr riscos e, para isso, pedem a opinião da mulher”, diz Marcelo Prado, diretor do Iemi.

E mesmo indo menos às compras – 65% dos homens adquiriram um artigo de moda nos últimos três meses, contra 78% das mulheres – eles levam o assunto a sério. Isso porque, dentro desse período, 88% dos homens compraram apenas artigos para si, enquanto menos mulheres (83%) tiveram a mesma atitude. Ou seja: boa parte das consumidoras ainda cuida do guarda-roupa de maridos, pais e filhos.

O que falta, portanto, não é apreço pela moda, mas a compreensão ampla de seus códigos. O interessante é que, em outros tempos, eles já foram tão ou mais exibidos que as mulheres e sabiam fazer uso da indumentária para se comunicar – e se diferenciar. A maneira opulenta do vestir dos homens das cortes europeias, por exemplo, perdurou pelos séculos XVI e XVIII. A festa dos tecidos trabalhados, dos bordados e das formas bufantes só terminou com a Revolução Francesa, no fim do século XVIII.

A uniformização do vestuário masculino, na forma de ternos e costumes, começou a se configurar a partir daí. A roupa foi perdendo detalhes e adornos até tornar-se austero no princípio do século XX. De lá pra cá, houve pouca variação no conjunto formado por paletó, camisa, gravata e calça. Apenas o colete foi caindo em desuso – junto com o exercício da “gramática da moda”. E como se aprende na escola: o que não é exercitado, dificilmente é aprendido.

“A vestimenta formal masculina é tão cheia de regras que não deu espaço para o homem exercitar a criatividade”, diz Silvana Bianchini, consultora de imagem e sócia do site imagempessoal.com.br. Segundo Silvana, até alguns anos atrás, o homem sequer se olhava no espelho. E, até hoje, não é bem informado quanto são as mulheres. Por conta disso, o sujeito muitas vezes não sabe avaliar o impacto de suas roupas.

Voltando ao exemplo do começo do texto, uma bermuda não pode ser usada no “casual Friday” em nenhuma hipótese – mesmo em firmas altamente liberais. “Infelizmente, temos de nos basear na leitura que a maior parte das pessoas faz”, diz Silvana. “A bermuda é lida como roupa de lazer e nunca vai transmitir uma imagem profissional.” O mesmo vale para a dupla jeans e camiseta para fora da calça – que parece exibir o letreiro “vim com a roupa que estava em casa”.

Há outros exemplos de “sabotagem visual”. A combinação entre várias cores fortes, o abuso de tons contrastantes ou de padronagens podem “roubar” a atenção do interlocutor e atrapalhar a comunicação. Não é à toa que personagens atrapalhados da ficção, como o detetive Mário Fofoca (Luís Gustavo), da telenovela “Elas por Elas” (1982), normalmente são representados por figurinos excêntricos.

Fugir do uniforme básico sem cair na caricatura, portanto, requer domínio dessa linguagem. A calça jeans, por exemplo, é aceita em muito ambientes corporativos, mas desde que seja de cor uniforme e sem muitos detalhes. “O jeans manchado e puído tem o mesmo efeito de uma roupa rasgada, ou seja, parece desleixo”, diz Silvana. Sapatos casuais também podem ir ao escritório, mas desde que não pareçam esportivos. O uso da barba, apesar de “fashion”, ainda é tido pela maioria como coisa de malandro – mesmo que uma versão barbuda do ator Ben Whishaw esteja na campanha da grife Prada.

A linha entre o bem e o mal é tênue e não perdoa confusões. Daí a necessidade de aprender esse idioma. A razão principal pode ser descrita por um trecho do livro “Dispa-me – O que nossa roupa diz sobre nós”, das psicanalistas francesas Catherine Joubert e Sarah Stern: “A roupa, essa segunda pele, pertence ao mesmo tempo ao dentro e ao fora, tanto protege o espaço íntimo quanto abre para o espaço social e relacional. A roupa ocupa uma posição fronteiriça, de interface entre o sujeito e o mundo, podendo mascarar o sujeito ou, ao contrário, revelá-lo.” (Fonte: Valor Econômico – 12/08/2013)

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