Notícias: Empresários de móveis precisam unir-se para enfrentar crise

 

Okamotto foi o primeiro a falar e aproveitou para dar boas-vindas aos presentes. “Estamos observando o cenário nacional e o crescimento da riqueza do País nos últimos anos. As micro e pequenas empresas também precisam participar desse crescimento”, enfatizou. Ele ressaltou a função do evento de discutir e buscar caminhos para o desenvolvimento do setor. “O Sebrae vai trabalhar nesse sentido e até 2008 deve investir R$ 117 milhões nos arranjos produtivos de móveis, que são constituídos por mais de 7,5 mil empresas formais e informais. Queremos levar mais competência, desenvolvimento em design, inovação tecnológica e competitividade a essas empresas, visando adensar o setor moveleiro”, acrescentou. Também participou da mesa de abertura o presidente da Abimóvel, Domingos Rigoni.

Logo após a abertura do evento, teve início o primeiro painel do congresso que tem como tema ‘Crise ou novo posicionamento e mercado?’ No painel, foi destacado o panorama do setor moveleiro brasileiro no contexto mundial. Para alguns empresários o setor está vivendo uma crise e para outros as dificuldades atuais enfrentadas pelas empresas moveleiras decorrem das novas características do mercado interno e externo.

Em um palco bastante apropriado para o tipo de evento, ambientado como uma sala de estar, com sofás, mesas, cômoda e plantas ornamentais tiveram início os debates. O diretor do Instituto de Estudos e Maketing Industrial (Iemi), Marcelo Prado, foi o primeiro palestrante. “Nós podemos nos inserir no contexto mundial, desenvolvendo parcerias entre nossas empresas, desenvolvendo design, tecnologia, etc. Essa é uma das questões mais importantes que vamos tratar neste congresso”, destacou Prado.

O palestrante enfatizou que o momento atual é ideal para inserir a produção de móveis brasileiros no contexto mundial. “Esta janela ainda está aberta para o Brasil. Para os setores de têxtil e de confecções, já fechou”, alertou o palestrante. Para isso, será necessário desenvolver parcerias entre empresas, design, tecnologias, etc.

Ele tomou como base pesquisa realizada em 2005, que visava contextualizar o setor moveleiro do País no cenário mundial, identificar oportunidades e possíveis ameaças. Ari Morangi, jornalista e diretor de marketing da Central de Excelência Moveleira (CEM), foi o moderador do painel. “Vamos falar de mitos e verdades sobre esse setor”, avisou Morangi.

Também participaram do painel: Aneli Franzmann, diretora do Departamento das Indústrias Intensivas em Mão-de-Obra e Recursos Naturais (SDP) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), que representou o ministro Luiz Furlan; Allan Barros, especialista em marketing de varejo e ex-diretor de móveis e marketing das Casas Bahia; e Marli Mazzola Lazzarotto, diretora da Arvy Indústria de Móveis para Escritório, de Bento Gonçalves (RS).

A pesquisa destacada por Marcelo Prado foi baseada em dados secundários disponíveis referentes ao período de 2000 a 2004. Os questionários foram respondidos por 500 empresas de todos segmentos, portes e regiões do País. As informações foram cruzadas com dados socioeconômicos do IBGE.

Em termos mundiais, 42% da produção de móveis ocorrem na União Européia; 27%, na América do Norte; e 25% nos países asiáticos e do Pacífico. A tendência observada pelo estudo apontou tendência em aumentar a participação das regiões com menores custos de produção. Esse fato demonstra que existe grande oportunidade de crescimento da indústria moveleira no Brasil.

“O consumo de móveis vai continuar concentrado nos Estados Unidos e na União Européia”, disse Marcelo Prado. Em 2004, esses mercados importaram 84% do total de importações moveleiras realizadas no mundo. Os Estados Unidos importaram US$ 34,5 bilhões e a União Européia, US$ 21,4 bilhões. “Quando pensarmos em exportar móveis, temos de pensar nesses mercados”, insistiu o palestrante.

Apesar dos Estados Unidos serem os maiores produtores de móveis do mundo, estão operando forte emigração para outros países. Esse país absorve 40% das exportações brasileiras, segundo o estudo apresentado. O Brasil está em novo lugar no suprimento de móveis para o mercado norte-americano. Por outro lado, o País importou apenas 1,7% de móveis dos Estados Unidos.”Esse número é nada”, traduziu Marcelo Prado.

A demanda por móveis, em termos mundiais, aumentou em torno de 6%, nos últimos anos, com 28% de expansão nas importações. Mas esse crescimento é moderado e não é exclusivo do setor moveleiro, pois está ocorrendo em outros setores como o de calçados e confecções. Já a União Européia, constituída por 25 países, sendo 15 ricos e 10 menos desenvolvidos, é responsável por 39% do consumo mundial; 41% da produção mundial; 48% das importações mundiais; e 57|% das exportações mundiais. “Exportar para os europeus, significa viajar 200 quilômetros”, explicou o palestrante.

Para as empresas brasileiras, ao contrário, significa lidar com distâncias que variam entre 12 mil a 40 mil quilômetros, ressaltou o diretor do Iemi. “Nossos custos de logística são outros. Temos realmente dificuldade de assimilar a cultura exportadora”, acrescentou. Ainda sobre a União Européia, o palestrante informou que existem 140 mil produtores de móveis, responsáveis pela geração de 1,3 milhão de empregos. Cada empresa, em média, conta com dez empregados, portanto a maioria é composta por micro e pequenas empresas.

Mercado chinês

O mercado chinês de móveis é dividido em três grupos, segundo estudo do Iemi. Cerca de 30 mil produtores chineses trabalham voltados para o mercado interno. No país, 1,5 mil empresas vinculadas aos grupos empresariais de Hong Kong são responsáveis por 60% da produção e exportação de móveis para os Estados Unidos, 11% para União Européia, e 10%, para o Japão.

O terceiro grupo é composto por grandes empresas com produção totalmente voltada para exportação, conhecidas como grupo Guangdong. Muitas dessas empresas são vinculadas a produtores norte-americanos e europeus. Nesse caso, as empresas utilizam máquinas modernas, tecnologia de ponta, boa qualidade e têm preços baixos. “Os chineses criaram uma planta para exportação”, afirmou Marcelo Prado. “Teríamos de criar clusters ou pólos especializados no Brasil para competir nessa área. No estágio atual, não estamos preparados para competir com eles”, avaliou.

Indústria moveleira

O estudo do Iemi apontou a existência de 14,4 mil empresas no setor moveleiro no Brasil. Estão incluídas no estudo apenas indústrias com padrão mínimo de produção e maquinário. Essas empresas produzem 309 milhões de peças por ano, geram 228 mil empregos, têm R$ 330 milhões investidos; R$ 17 bilhões em vendas; e US$ 1 bilhão em exportações. Os dados são de 2004.

“É uma performance muito baixa e a produção é bastante fragmentada”, comentou o palestrante. De acordo como estudo, 72% dos produtores de móveis brasileiros possuem menos de dez funcionários. As grandes empresas não chegam a vender 30% do total de móveis comercializados no País. Na média, as empresas contam com uma única unidade de produção, com cerca de 800 metros quadrados de área construída. O turno de trabalho varia entre oito e 15 horas por dia. “As máquinas ficam mais tempo paradas do que produzindo móveis e capital”, analisou o palestrante.

A área de produção concentra 86% dos funcionários do setor moveleiro. Apenas 2% atuam na área de vendas. “As vendas geralmente são terceirizadas”, acrescentou. As empresas, em média, têm 100 clientes e contam com 1,2 vendedor, segundo a pesquisa do Iemi. “Essa estrutura é para vender de vez em quando. As empresas estão focadas em si mesmas e não no mercado, na venda, no consumidor”, enfatizou Marcelo Prado.

Tanto a produção quanto o consumo estão concentrados nas Regiões Sul e Sudeste. São Paulo é o grande mercado produtor de móveis, responsável por 25% dos produtos. O Estado de Minas Gerais e estados da Região Sul representam 15% da produção. Espírito Santo, Mato Grosso, Goiás, Bahia, Pernambuco, Ceará e Rio de Janeiro, equivalem juntos a 5% do mercado moveleiro. Os demais a apenas 1% ou menos que isso, como no caso de Roraima.

Embora o setor não venha crescendo, nos últimos anos, reduziu em 4%, as vendas nominais cresceram 3,6%, no período de 2000 a 2004. Na ocasião do levantamento de dados, a expectativa de crescimento do setor era de 15% em 2006. No primeiro quadrimestre deste ano, o setor cresceu 4% e até dezembro deverá fechar com esse percentual. Os móveis de dormitório lideram a produção nacional de móveis, correspondendo a 37,6%, entre camas, cômodas, criados-mudo, guarda-roupas e colchões.

Desde 2004, as grandes lojas de varejo estão também fabricando móveis. Essa informação apresenta uma nova tendência, a ser considerada pelo setor moveleiro. As exportações brasileiras de móveis cresceram, nos últimos anos: em 2003, somaram US$ 670 milhões; em 2004, US$ 951 milhões; e em 2005, US$ 1002 milhões. A participação em feiras internacionais, com apoio do governo federal e, em particular, da Apex, ajudaram a melhorar as exportações do setor. Os principais pólos exportadores ficam em São Bento do Sul (SC); Arapongas (PR); Rio Negrinho (SC); Lagoa Vermelha (RS); Bento Gonçalves (RS); Votuporanga (SP); Linhares (ES); Mirassol (SP); e na região metropolitana de São Paulo (SP).

Nos últimos dois anos, apesar da perda de renda ocorrida, o estudo demonstra que a renda per capital do País cresceu 28%, entre 1995 e 2005. Os consumidores brasileiros estão gastando com eletroeletrônicos, planos de saúde, escolas particulares, etc. “Isso é um problema a ser resolvido pelo setor moveleiro. Os empresários do setor têm de buscar os consumidores”, alertou Marcelo Prado. Talvez também tenham de fazer parcerias com redes distribuidoras, acrescentou.

Outro dado importante foi em relação ao perfil de consumo das cidades brasileiras. Dos 5.564 municípios, as vendas ocorrem em 150 cidades. Significa que três quartos do consumo no Brasil acontecem nessas 150 cidades, salientou o palestrante. “A grande fragilidade comercial das empresas moveleiras, a fragmentação da produção e o aumento do poder de compra das grandes redes de varejo estão entre os principais gargalos do setor”, resumiu Marcelo Prado.

“A produção de partes componentes oferece boas oportunidades para produção e exportação, além de dar flexibilidade à produção local. Mas, por enquanto não é foco das empresas moveleiras em geral”, observou o palestrante. “Para a empresa crescer é preciso reiventar novas curvas, que significam novos produtos, canais, consumidores, etc”, concluiu Marcelo Prado.

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