Notícias: A indústria têxtil tem futuro?

Marcelo V. Prado*

 

Um dia desses, em um encontro com colegas economistas, um deles me perguntou se eu continuava a pesquisar a “velha” indústria têxtil… É bom ressaltar que quando um economista com mestrado e doutorado denomina um segmento industrial de “velho”, ele não está querendo ser amável, na verdade ele está querendo atribuir a ele propriedades do tipo: “superado”, “sem futuro”, “inviável” e daí por diante.

Independentemente da resposta que dei ao meu amigo, pessoa a quem muito prezo, acho oportuno dividir com vocês, caros leitores, o meu pensamento sobre a “velha” indústria têxtil, que tantos costumam qualificar como um segmento pouco atrativo aos investidores, em especial quando comparada a segmentos mais novos da nossa indústria, mesmo após ter quadruplicado a sua produtividade industrial nos últimos 20 anos, às custas de pesados investimentos em equipamentos, processos e produtos.

Após vinte anos estudando este setor, posso afirmar que ainda está por nascer o “visionário” que irá prever quando o ser humano não mais precisará dos produtos têxteis e confeccionados para sobreviver em nosso planeta. E esse fato, por si só, garante ao setor têxtil, do Brasil e de qualquer lugar do mundo, uma vida muito longa.

Não há dúvidas que as indústrias de “nova tecnologia”, como as que surgiram dentro dos setores eletroeletrônicos, informática, comunicação, entre outros, são, sem sombra de dúvida, as mais desejadas para o portfólio de qualquer fundo de investimento. Afinal, estas empresas oferecem no início de seu desenvolvimento um ritmo acelerado de crescimento e possibilidades de ganhos de capital bem mais atrativos do que os normalmente apresentados pelos setores mais tradicionais.

Não podemos nos esquecer, porém, que na maioria dos casos, após os primeiros anos de desenvolvimento, os produtos e serviços oferecidos por estas novas indústrias, tendem a se tornar altamente desejados, para em seguida virarem commodities e depois desaparecerem, ou ao menos, deixarem de serem desejados e rentáveis. Muitos deles caindo na vala comum da concorrência com produtos sem marca, made in China. O ciclo destas novas indústrias tem durado, muitas vezes, menos que 10 anos, até começarem a ser substituídos, ou simplesmente descartados pelo mercado.

Querem alguns exemplos de “febres” de consumo já devidamente curadas? Que tal lembrarmos do walkman, do vídeo-cassete, ou mesmo do atual DVD, encontrado no varejo hoje por menos de R$ 100,00. O que falar do FAX, ou mesmo das TVs de Plasma, que perderam para as de LCD, já substituídas pelas de LED. Mudam-se os produtos, com eles o comportamento de compra dos consumidores, muitas marcas antes desejadas são esquecidas e as empresas que não conseguiram acompanhar as mudanças, desaparecem sem deixar saudades.

Mesmo assim, caros leitores, mesmo com o avanço implacável das novas tecnologias, ainda não consigo enxergar o dia em que uma inovadora coleção de roupas, assinada por um estilista reconhecido, ou por uma grande marca, chegue ao ponto-de-venda sem causar aquele tradicional frisson, com filas de compradores dispostos a pagar valores exorbitantes para serem os primeiros a nova tendência da moda.

Da mesma forma, olhando para o grande mercado de massa, não consigo enxergar o dia em que o inverno chegará e a tradicional “Campanha do Agasalho” terá sido substituída por algo futurista do tipo “doe uma cartela de pílulas do aquecimento a quem tem frio”. Ou, ao invés de acordarmos de manhã e preguiçosamente nos prepararmos para escolher a roupa que iremos vestir no dia, simplesmente nos enfiaremos em um modelito do tipo “Pele Artificial Protetora – Modelo Casual – Versão 4.0”… Mesmo nos mais premiados e famosos filmes de ficção norte-americanos, ambientados anos-luz do nosso tempo, os personagens que neles aparecem estão sempre muito bem vestidos, em roupas cheias de design e “sex appeal”.

Para mim, o segredo da longevidade da indústria têxtil e confeccionista, que se confunde com a própria história da indústria mundial, reside na sua capacidade de se renovar continuadamente, inserindo em seus produtos tudo o que há de mais moderno no campo da ciência e do design; agregando propriedades e diferenciais inovadores, de grande atratividade. Prova disso é que o setor têxtil é um dos poucos que já oferecem aos seus consumidores, produtos que incorporam soluções baseadas na nanotecnologia. Esta habilidade que o segmento sempre demonstrou, é também o diferencial que o levará tão longe quanto preveem os nossos autores de ficção.

No Brasil são 30 mil indústrias, que ocupam 1,7 milhões de pessoas (ou melhor, famílias), disputando um mercado que movimenta mais de R$ 145 bilhões no varejo.

Quando dizem que o Brasil está a “pleno emprego”, me pergunto onde se enquadram os 16 milhões de pessoas que vivem neste país, na mais irrestrita pobreza (segundo dados divulgados pelo IBGE). Em minha opinião, o que falta para absorvê-las no mercado de trabalho é criar um ambiente de produção favorável às cadeias produtivas intensivas em mão de obra, como é o caso do setor têxtil e de confecção.

As oportunidades estão aí e não acho que estejamos em condições de desperdiçá-las.

Não consigo ver o futuro sem um produto têxtil, não consigo imaginar o Brasil sem uma indústria têxtil de primeiro mundo. Posso lhes garantir, a moda é acima de tudo um grande negócio… E cabe a nós, que atuamos no segmento, e a nossos governantes que têm o poder de interferir no ambiente de produção do país, tratá-la como tal.

 

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