Na mídia: Otimismo Injustificado

Foi apresentado o relatório setorial da indústria de calçados para 2012, pela Abicalçados no dia 24 de maio, para a imprensa na sede da FIESP em São Paulo. Os dados apresentados são interessantes e alarmantes ao mesmo tempo

Ao mesmo tempo aproveitando a reunião, o diretor do Instituto de Estudos e Marketing Industrial (IEMI), Marcelo Prado, apresentou os dados sobre o panorama mundial de produção de calçados. Em 2010 foram produzidos 17,6 bilhões de pares de calçados sendo 85 % produzidos na Ásia. O Brasil ocupa a terceira posição com 5,1 % produzidos, atrás da China e a Índia, com 2% de valor nas exportações globais. Os maiores exportadores mundiais são a China, Itália e Vietnã.

O relatório setorial constatou a redução de 8,4 % de produção em comparação com o ano de 2010. Foram produzidos 819 milhões de pares. Em valores monetários a produção gerou 21,8 bilhões de reais, o que representa 1,09 % do valor total da produção da indústria de transformação brasileira. Talvez, este dado representa o pouco caso de que é vítima a indústria brasileira de calçados pela parte do governo. – Este comentário é meu e não faz parte da avaliação setorial.

O mercado internacional continua preocupando. Foram exportados 113 milhões de pares, mas houve uma queda de 21 % em comparação com o ano anterior. Este número está preocupando, porque ano após ano a exportação está diminuindo e a perda dos mercados internacionais está se fazendo sentir pela pressão que os antigos exportadores exercem sobre o mercado nacional na tentativa de conquistar uma fatia deste.

Destoam do quadro geral da economia global e do posicionamento da indústria de calçados brasileira, as opiniões emitidas pelo diretor executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Heitor Klein, cujo otimismo, com respeito aos mercados internacionais e as possibilidades brasileiras de conquista e recuperação destes não se justificam.

Na opinião dele “na China há demanda por produtos de maior valor agregado, com design diferenciado e a produção chinesa não atende a essa necessidade. A China também deve declinar nas exportações, porque o mercado doméstico chinês irá demandar ainda mais, o que já vem acontecendo. E a única região capaz de suprir esta demanda mundial é a América Latina, especialmente o Brasil.”

Bem, com todo respeito às opiniões emitidas, este otimismo não é justificado pela realidade; A capacidade chinesa de produzir quantidades impressionantes não pode ser desprezada. E quanto à qualidade dos produtos, e o design diferenciado, os chineses podem buscar as mesmas fontes como os estilistas brasileiros, se não importarem diretamente os estilistas italianos. A qualidade inferior dos produtos baratos está compensada pela qualidade superior dos produtos muito mais sofisticados do que calçados. Maior parte dos computadores ou celulares que estamos usando foi produzida na China. É preciso dizer mais? Quem produz computadores de qualidade não é capaz de produzir calçados de qualidade?

No lugar de proclamar otimismo sobre a possível mudança no panorama tanto nacional como internacional, que podemos considerar, com base no realismo frio, como irreversível seria bem mais proveitoso mostrar ao empresariado calçadista uma saída para esta situação.

Saídas
Existem saídas, sim, mas envolvem uma mudança radical no pensamento e no comportamento dos empresários quanto á estratégias e a metodologia do trabalho. Permanecer estacionário, trabalhando com métodos do século passado e caminho sem volta para o fracasso. Uma gestão com orientação para os resultados a prazos longos é hoje uma obrigação vital.

Em que consiste a mudança dos hábitos e da gestão tradicional, hoje obsoleta? Pela enésima vez vou repetir o mapa do caminho da salvação e da sobrevivência das indústrias de calçados no Brasil. O lema deve ser: ‘Trabalhar menos e ganhar mais!’ Como? Melhorar a produtividade, adotar a tecnologia lean da Toyota, mas evitar a enrascada em que a própria Toyota se meteu apostando tudo na produção e produtividade e deixando a qualidade no segundo plano.

Criatividade
Criar produtos originais com a criatividade que os brasileiros têm de sobra, produtos bem elaborados sob pontos de vista de economia e operacionalidade, o ponto fraco dos nossos modelistas. Lançamentos freqüentes acompanhando tendências do mercado, sem investir em coleções enormes com poucos modelos vendendo, flexibilidade da área produtiva para uma rápida mudança acompanhando as tendências da moda. Completa reformulação da comercialização, com atendimento expresso das reposições e colocação de novos modelos em questão de horas e dias e não de semanas e meses como se fazia no passado. Substituir o verbo “vender” pelo verbo “servir”.

Estes são somente alguns dos pontos onde a indústria tem que se adaptar aos novos tempos e á concorrência, que não está presa aos hábitos do passado, não carrega ônus de uma taxação exorbitante, de uma legislação obsoleta e de uma infra-estrutura logística praticamente inexistente.

É um desafio e tanto. Mas não adianta a se iludir com otimismo oficial que não tem nada em que se apoiar a não ser querer mostrar o quanto está preocupado e vigilante sem, no entanto, mostrar o caminho para a saída deste emaranhado de problemas. Cabe a cada empresário fazer a sua análise da situação e escolher os caminhos, parte de cujos rumos especifiquei acima, e não esquecer que o tempo trabalha contra nós.

 

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