Hora de sair do conforto

Os sinais da retoma da produção e do consumo no Brasil, já são bastante consistentes e disseminados pelas diferentes linhas do vestuário. Prova disso são os resultados do primeiro semestre deste ano que, como já era previsto, registrou crescimento expressivo na produção, com um avanço de 5,2% em volumes de peças confeccionadas, sobre o mesmo período do ano passado.

Este crescimento foi puxado por uma demanda mais aquecida no varejo local, onde o frio, a melhora no emprego e o dinheiro sacado do FGTS ajudaram a elevar as vendas de vestuário nas lojas, em +5,7% na mesma base de comparação (em volumes de peças, sobre o primeiro semestre do ano passado). Para o final deste ano, não temos dúvida, que avançaremos ainda mais, o que deverá renovar o otimismo das nossas empresas, em relação ao futuro do nosso mercado.

Porém, não podemos nos esquecer que se compararmos os resultados alcançados até aqui, com os melhores anos da indústria local, ainda há um longo caminho a ser percorrido e onde é notória a percepção de que a capacidade da oferta interna ainda se encontra bem acima da demanda atual, equilíbrio que só deverá ser alcançado daqui a três ou quatro anos (por volta de 2020, ou 2021).

Neste cenário, fica claro que a retomada do consumo interno, cujo ritmo tende a ser lento nos próximos anos (entre 2,5 a 3,5% ao ano), deverá ocorrer em meio a uma forte competição entre os players locais, somado a um aumento nos volumes de importações, que já se mostram, novamente, em elevação.

Aqui cabe uma explicação: as importações sofreram queda pouco inferior a 40% nos últimos dois anos (2016 sobre 2014), devido a dois grandes fatores, a valorização do dólar frente ao real e à queda no consumo interno. Com uma redução perto de 10% no valor da moeda americana, na primeira metade deste ano, e a retomada paulatina do consumo interno, a expectativa é de que parte considerável do que deixou de ser importado retorne ao nosso mercado, já a partir deste ano, mantendo acirrada a concorrência interna.

A história da indústria do vestuário tem nos mostrado que em momentos como este, de forte concorrência, a maioria das empresas brasileiras de vestuário, até por serem compostas por uma vasta gama de médios e pequenos produtores, acabam por apostar suas fichas em uma estratégia direcionada para produtos que já são moda (seguidoras), tendo como único grande diferencial, o “menor preço”.

 

Este modelo, como bem sabemos, não costuma gerar lucro para os seus adeptos, empurrando boa parte destas empresas para a informalidade, como meio de garantir a sua sobrevivência no mercado, e causando uma grande vulnerabilidade para o negócio. É uma típica situação de “destruição de valor” em escala setorial, que mina a capacidade da própria indústria em absorver as melhores práticas, novas tecnologias e a gerar empregados mais qualificados.

 

Mais do que nunca é hora de buscarmos um novo modelo de negócio para a moda brasileira, em especial por parte das pequenas e médias empresas, que devem procurar se diferenciar no mercado, visando criar valor e gerar lucro, mais do que crescimento.

 

O consumo de moda hoje é fragmentado em um sem fim de nichos de mercado, muitos deles representados por consumidores de uma nova geração, com comportamentos e valores próprios, nascidos na era da internet e da informação em tempo real, com uma nova visão de mundo e cada vez mais diverso em termos de estilos, hábitos e crenças.

Não há limitações para se criar valor dentro da moda, mas para isso, é preciso sair do conforto de uma mera imitação e ir além, inovar e criar seus próprios diferenciais.

Sucesso!!!

 

. Indicadores do Varejo de Moda

A venda do comércio varejista de vestuário avançou em junho. Em volumes físicos a alta foi de 2,5% e, em valores de venda, de 2,9% sobre o mês anterior (maio). No acumulado no ano, entre janeiro e junho, a alta acumulada já chega a 8,2% nas receitas (nominais, sem descontar a inflação) e de 5,7% nos volumes de peças comercializadas.

A produção nacional destes artigos, em número de peças, demonstrou um comportamento distinto do varejo, com uma variação negativa de 1,2%, em junho, quando comparado a maio. Ainda assim, no acumulado do ano, a alta se mantém positiva, em torno de 5,2%.

Em relação ao comércio externo, as importações brasileiras de roupas (em dólares) mostraram queda de 10,0% em junho, mas na comparação anual apresentam alta de 9,4%. Já as exportações, tiveram queda de 17,1% no mês, mas também demonstram alta de 16,7% no acumulado do ano (semestre, contra semestre).

. Desempenho Vestuário Variação no mês 1 Variação Anualizada 2
  Vendas no Varejo (R$) 2,9% 8,2%
  Vendas no Varejo (Peças) 2,5% 5,7%
  Produção Industrial (Peças) -1,2% 5,2%
  Importações (US$) -10,0% 9,4%
  Exportações (US$) -17,1% 16,7%

Fontes: IEMI / IBGE / SECEX
(1) Junho 2017 / Maio 2017
(2) Janeiro-Junho 2017 / Janeiro-Junho 2016

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(*) Marcelo V. Prado é sócio-diretor do IEMI – Inteligência de Mercado – faleconosco@iemi.com.brwww.iemi.com.br;


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