As Grandes Indústrias e o Grande Varejo de Moda

Há alguns anos temos assistido à expansão do varejo de moda, de grande superfície, no Brasil, o que já não chega a ser mais uma novidade para ninguém. A sua evolução vem ocorrendo em detrimento da participação relativa do pequeno varejo tradicional (lojas independentes, não organizadas em redes), ainda hoje o principal canal de vendas de vestuário, no mercado interno, no quesito volume de peças comercializadas.

Para se ter uma base de comparação, nos últimos seis anos (2009 a 2015), com crise econômica, política e tudo o mais, o grande varejo de moda conseguiu acumular uma expansão de 14% em volumes, contra uma redução de 2% do pequeno varejo, neste mesmo período. Com isso a participação relativa do pequeno varejo se reduziu de 41% para 37% do volume total comercializado de roupas, no país, enquanto que o grande varejo ampliou a sua participação de 29% para 31%.

Em faturamento, a expansão do grande varejo de moda foi ainda maior, passando a ostentar a maior receita líquida de vendas, no segmento de vestuário, com vendas anuais da ordem de R$ 57 bilhões.

Para garantir este crescimento, grandes ícones do varejo de moda, como Renner, C&A e Riachuelo, só para citar alguns, tiveram que se reinventar, com a expansão de suas redes de lojas, pesados investimentos em sistemas e logística, novos serviços financeiros, ambientação de loja, novas estratégias de marcas, expansão do mix de produtos e um modelo bastante sofisticado de lançamento de coleções e inovação, comumente chamado de fast fashion, de fazer inveja a qualquer grife internacional.

Todo este esforço foi devidamente recompensado por uma grande melhoria na imagem destas redes frente ao seu público mais tradicional, no caso os consumidores de média e baixa renda, além de passar a chamar a atenção de novos consumidores, mais jovens e antenados, juntamente com os de maior poder de compra, que costumavam ter certo preconceito com estas lojas, por considerarem seus produtos pouco atrativos e de qualidade questionável.

Dentro da estratégia de crescimento do grande varejo de moda, foi preciso criar uma nova rede de suprimentos, com a ampliação de novos fornecedores locais e uma participação crescente das importações em seu mix de produtos, em grande parte focada em produtos mais elaborados e de maior qualidade, visando agregar valor e se diferenciar da concorrência.

As compras no exterior, porém, só se viabilizaram com a forte valorização do Real, a partir de 2006/2007, que retirou boa parte da competitividade das indústrias confeccionistas brasileiras, em especial das empresas de médio e pequeno porte, justamente onde se enquadra o maior grupo de fornecedores destas redes no país.

Por sua vez, os maiores e mais eficientes fabricantes brasileiros de roupas, ao menos em sua grande maioria, há muito cultiva uma forte restrição em atuar como fornecedor do grande varejo de moda do país, buscando privilegiar as pequenas lojas multimarcas e as redes próprias de franquias, como forma de agregar mais valor às suas marcas e melhor remunerar o capital investido em suas indústrias.

È fato, porém, que a recente desvalorização do Real, ocorrida em 2015, encareceu os produtos importados e devolveu parte da competitividade às indústrias nacionais. O problema, entretanto, é que muitos dos pequenos e médios fornecedores locais, que formam a principal base de suprimento das grandes redes de moda, carecem de escala e investimentos para alcançar os mesmos patamares de eficiência, qualidade e tecnologia, obtidos até com certa facilidade junto aos grandes produtores asiáticos, afeitos com as exigências da moda européia e norte-americana.

Assim, o processo de substituição de importações por suprimento local, imaginado pelas grandes varejistas, vem enfrentando um grande entrave nas limitações de produção de boa parte de seus fornecedores locais, o que pode comprometer a expansão planejada destas redes, prevista para ser acelerada, tão logo haja a retomada do consumo.

No meu modo de ver, a futura expansão das grandes redes de varejo de moda do país, passa, necessariamente, por uma aproximação com os grandes fabricantes locais, que reúnem todos os requisitos de capacidade produtiva, eficiência e tecnologia, necessários ao atendimento dos anseios de qualidade, velocidade e inovação do grande varejo de moda.

Para tanto, porém, velhos ranços terão que ser removidos e uma nova forma de negociar, mais corporativa, onde a alta direção das companhias se sente à mesa (industriais e varejistas), em busca de uma relação comercial mais transparente, estratégica e com visão de longo prazo. E a hora é agora.

Sucesso!!!

 

. Indicadores Setoriais

A produção da indústria do vestuário apresentou aumento de 12,5% no mês de junho de 2016, quando comparado ao mês anterior. No 1º semestre de 2016, segundo a pesquisa industrial mensal do IBGE, o índice registrou queda de (-)10,3% no semestre e de (-)11,4% nos últimos 12 meses no volume físico produzido.

O índice de vendas no varejo (volume) de vestuários teve aumento de 3,3% no mês de junho em relação ao mês anterior, no ano, acumula retração de (-)11,1% e de (-)11,3% na variação nos últimos 12 meses. O valor das importações reduziu em (-)48,7% no 1º semestre de 2016 sobre o mesmo semestre do ano anterior. A taxa média do câmbio no período foi de R$ 3,711 (25% superior ao mesmo semestre de 2015), a expectativa é que o valor dessas importações reduza-se ainda mais ao longo do ano, beneficiando assim a indústria brasileira. Essas importações somaram US$ 794 milhões no 1º semestre de 2016.

As exportações brasileiras de vestuários alcançaram US$ 67,7 milhões no ano, com queda de (-)6,8% em relação ao 1º semestre de 2015, apesar da elevação recente do câmbio, dando claras demonstrações de recuperação neste indicador, demandará tempo e muito trabalho para gerar os frutos desejados.

Segundo o IBGE, os preços do vestuário no varejo recuaram 0,38% no mês de julho de 2016, acumulando 5,37% nos últimos 12 meses.

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Fontes: IBGE / SECEX – Elaboração IEMI

Notas: (1) IPCA – Índice de preços ao consumidor amplo da cesta de produtos de vestuário – Brasil

           (2) Variação de janeiro a julho de 2016 contra janeiro a julho de 2015

 

Assinatura: Marcelo V. Prado é sócio-diretor do IEMI – Inteligência de Mercado, e membro do Comitê Têxtil da FIESP (coluna.cp@iemi.com.br).

(Conheça a edição completa: http://www.calameo.com/read/0046409191e687dcff24e)

 

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